O CANCRO SERÁ MAIS FREQUENTE PORQUE VIVEMOS CADA VEZ MAIS»

No dia 4 de fevereiro assinala-se o Dia Mundial da Luta contra o Cancro, que visa recordar a vida de todos os que enfrentam ou enfrentaram a doença e dos profissionais que os apoiam através de investigação científica na área da oncologia.

cancro dest

Todos os anos morrem, em todo o mundo, cerca de oito milhões de pessoas vítimas desta doença e muitos casos acontecem devido à falta de prevenção, deteção e tratamento adequado atempadamente.

No nosso país, os números estão longe de ser animadores, pois um em cada quatro portugueses morre com um determinado tipo de tumor. No entanto, os avanços tecnológicos nesta área são cada vez maiores, a ponto de muitos especialistas defenderem que tem de haver bom senso, após o diagnóstico da doença, pois uma vez identificado o difícil é não tratar.

Foi neste sentido que a Maria falou com António Parreira, diretor clínico do Centro Clínico Champalimaud, para saber até que ponto se está a dar grande importância ao diagnóstico de uma pessoa com determinado cancro, colocando o paciente num ciclo de tratamentos que poderia ser dispensável.

Cancro: “Às vezes pecamos por excesso”

Na sua opinião, o grande desafio que se coloca atualmente passa por “conseguirmos otimizar o diagnóstico precoce do cancro e reconhecer aqueles que evoluem muito rapidamente e têm de ser tratados dos que são apenas observados e acompanhados, até se decidir se devem ou não ser sujeitos a uma intervenção terapêutica. Esse é um exercício muito difícil de se fazer e continua a ter falhas”, admite.

Por isso, reconhece: “Às vezes pecamos por excesso quando encaminhamos o doente para um tratamento oncológico. Mas isto não deixa de ser mais recomendável do que pecar por defeito”. Contudo, esta decisão tem consequências: “Por um lado é negativo do ponto de vista económico, pois gasta-se dinheiro com um tratamento que não era necessário, e por outro, qualquer que seja o procedimento oncológico, este vai ter sempre efeitos secundários ou adversos que nunca são bons para o paciente.»

«A decisão de fazer um tratamento num doente com cancro seria muito justificável se houvesse uma garantia de que o tumor iria ser fatal para a pessoa num período de tempo previamente conhecido. Mas como isso não acontece, temos de ter a humildade de admitir que, de facto, alguns dos doentes que são sujeitos a tratamento, provavelmente, não o deviam ser, pois esse cancro não iria evoluir a ponto de conduzir a sintomas graves ou mesmo provocar a morte”, continua o responsável.

Curável e reversível

Contudo, é sabido que a doença tem uma componente afetiva muito forte, onde as pessoas tendem a valorizar os casos que correm mal, em vez de valorizarem os que correm bem. É neste sentido que muitas vezes o diagnóstico médico surge aos olhos do paciente como algo de incurável e irreversível, onde o fim tem data próxima. Mas será que tem de ser necessariamente assim?

O cancro mata. Mas não mata sempre. Apesar de muitos nas fases iniciais serem curáveis e 60 por cento dos tumores avançados serem controláveis, eles são ainda vistos como “fantasmas”.

Para o especialista, “ter um cancro não é uma sentença de morte nem um estigma

«Alguns doentes não compreendem quando um médico lhes diz que têm um determinado tumor, mas não vão ser sujeitos a qualquer tipo de terapêutica. A reação mais imediata é a pessoa chamar ignorante ao médico. Temos de ser capazes de, nos pacientes onde encontramos células cancerígenas, colhermos informação através de biopsia, para saber se as conclusões são ameaçadoras, vão conduzir a uma doença grave e precisam de ser tratadas ou se, pelo contrário, essas lesões vão estar iguais passados dez anos e o doente poderá vir a morrer por outra causa totalmente diferente, não sendo por isso necessário sujeitá-lo a um tratamento desnecessário».

“Será mais frequente porque vivemos mais”

Prevê-se que num futuro próximo mais de metade da população vá ter a doença. Por isso é bom que nos habituemos a isso, como refere António Parreira:

«O cancro será mais frequente porque vivemos cada vez mais. Podemos chegar aos 100 anos sem morrermos de infeções ou doença cardíaca, pois sabemos como fazer prevenção – não fumamos, praticamos exercício, comemos mais vegetais e menos proteínas. Então, o que nos vai acontecer? Vamos morrer de velhos? Provavelmente, sim, mas esse processo de envelhecimento também contém riscos de morrermos de cancro. E vai ser isso que irá acontecer daqui a 20 ou 30 anos, onde a maior parte das pessoas acaba por ter como causa de morte um tumor que lhes aparece no fim da vida”.

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